23 de março de 2014

Prêmios, Crítica e Campo Literário

por Felipe Lindoso
em PublishNews - 04/02/2014


Bernard Pivot, há muito um dos meus ídolos do jornalismo literário, foi recentemente escolhido como presidente da Académie Goncourt, que outorga anualmente um dos prêmios literários mais prestigiosos da França, o Prix Goncourt.

Ser membro da Académie Goncourt é uma manifestação de enorme prestígio. Já houve época em que os acadêmicos recebiam um estipêndio derivado dos juros da herança dos fundadores. Hoje, formalmente, só ganham o jantar mensal, mas certamente desfrutam de um prestígio e de um poder literário – e à vezes político – consideráveis. Fundada pelos irmãos Edmond e Jules Goncourt no final do Século XIX, reúne dez membros, os titulares dos respectivos “couverts”: as reuniões formais da Académie acontecem sempre em um restaurante de Paris, o Drouant, no qual uma refeição custa mais que no tal Eleven de Lisboa, objeto da polêmica do jantar da presidente Dilma. Assim que, quem quiser desfrutar o dîner dês académiciens, o jantar mensal, que se prepare.

O Prix Goncourt, outorgado anualmente no começo de novembro, é financeiramente insignificante: são apenas € 10. Mas ser premiado é garantia de edições de altas tiragens e grandes vendas na França. Seus detentores passam a desfrutar de imenso prestígio literário, e a ser considerados como “exemplares” da saison littéraire.

A outorga do prêmio sempre é objeto de polêmica. Durante anos circularam insinuações e acusações de que as grandes editoras francesas manipulavam o prêmio. De fato, o próprio Pivot já declarou que Jean Giono, que o antecedeu como titular do “couvert”, “aparentemente nunca lia qualquer um dos livros da lista do Goncourt e na manhã do prêmio telefonava para o editor Gaston Gallimard para lhe perguntar em quem votar”. Pivot reconhece que agora há menos palhaçadas como essa.

Eu mesmo, quando trabalhava na CBL e coordenava o Jabuti, soube de um editor, da comissão do prêmio, que telefonou a um jurado fazendo pressão (o jurado, que me conhecia, me telefonou espantado). Respondi que ignorasse a conversa e votasse como quisesse.

Mas os problemas dos prêmios literários, na verdade, passam longe dessas situações. Acredito, sinceramente, que a grande maioria dos jurados, em todos eles e em todos os níveis, procura cumprir seu papel conscienciosamente e com honestidade. Pode manobrar – dentro das regras do jogo – para favorecer suas próprias posições estético-literárias. Isso aconteceuno Jabuti (o caso das notas “zero” na segunda etapa), mas a questão aí foi da própria formulação das regras.

Quais, então, os problemas?

Em alguns casos, a quantidade de candidatos ao prêmio é tão grande que o manejo disso se torna quase impossível. A primeira versão da Bienal Nestlé de Literatura, que recebia inéditos, teve que terminar o formato em 1993, quando a quantidade de originais foi tão grande que foi necessário alugar um galpão e contratar turmas de alunos de letras para fazer a primeira “peneira” dos originais. Era fisicamente impossível continuar recebendo tamanha quantidade de textos.

Mesmo quando o escopo do prêmio é limitado, como quase todos os casos de hoje (livros publicados no ano anterior, por exemplo, em várias categorias), a quantidade de originais geralmente supera – em muito – o que qualquer jurado pode ler no período determinado, especialmente nas principais categorias (romances, contos, poesia).

Há, portanto, que encontrar a maneira de diminuir a quantidade de candidatos submetidos ao julgamento final. Ou, dizendo de outro modo, entender como os jurados acabam focando sua atenção em um número mais restrito de candidatos, que são realmente os objetos de consideração.

Uma das soluções mais inteligentes é a do Prêmio Portugal Telecom, no qual a primeira seleção é feita por votação de um número muito significativo de convidados, entre críticos, jornalistas, escritores, pesquisadores, etc., cujos votos resultam na lista da primeira seleção.

Não é surpresa, entretanto, que mesmo essa primeira lista tenha uma presença muito importante de autores conhecidos e editados por casas editoriais já estabelecidas. Mas nessa lista ainda entram títulos e autores e editoras relativamente menos conhecidas.

Na medida em que o processo avança, entretanto, em todos os prêmios, os finalistas sempre são autores relativamente bem conhecidos, publicados por editoras idem. Tomemos mesmo o exemplo do Bernardo Kucinsky, que foi finalista do Portugal Telecom ano retrasado, que é conhecido como jornalista, não como romancista. Mas é um nome reconhecido.

Para entender a questão temos que ir mais fundo, e usar as ferramentas de quem foi além das aparências para estudar essas movimentações na área cultural. Pierre Bourdieu, e sua teoria dos campos, oferece instrumentos melhores para entender esse processo.

Olhem só.

Publica-se no Brasil mais de vinte mil títulos novos, em primeira edição, por ano. Evidentemente, literatura é só uma parte disso (e possivelmente pequena). Mas é, sem dúvida a área de maior prestígio. Como se chega ao reconhecimento e prestígio dentro dessa pletora de títulos?

Reconhecimento e prestígio no campo literário são um dos campos fascinantes da análise de Bourdieu. Entre os elementos dominantes do campo, seus controladores, estão efetivamente as grandes editoras e os críticos, especialmente os da chamada “grande imprensa”. Ser publicado por uma editora de “prestígio”é realmente meio caminho andado. Essa qualificação das editoras já é o resultado de uma cuidadosa construção feita a partir de relacionamentos, acúmulo progressivo do próprio prestígio através do apoio da imprensa. Nos casos bem sucedidos, isso tudo provoca um efeito de realimentação, como um mecanismo de transmissão que precisa cada vez de menos energia para aumentar a velocidade já alcançada pela inércia.

Na literatura, os títulos publicados pelas grandes editoras, que já acumularam prestígio, tendem a ser resenhados nos cadernos literários. Estes, por sua vez, estão cada vez mais reduzidos, o que aumenta sua importância relativa. Conseguir espaço significativo para um livro é mais fácil para uma grande editora, para um nome já conhecido, e o resultado é sempre um aumento do reconhecimento.

E caminho para os prêmios. Que aumentam ainda mais essa velocidade.

Evidentemente isso deve ser e é matizado por muitos outros fatores intervenientes, como os modismos, as inserções “transmídias” (ator de TV que vira escritor e fatura pelo seu reconhecimento extraliterário, por exemplo), as sutis e continuadas modificações no ambiente econômico, social e político no qual flutuam todos os campos das artes, inclusive o literário.

Esses diferentes componentes do campo deixam todos nele imersos de certa forma inconscientemente sujeitos a suas influências. Assim se formam paradigmas de apreciação de formas literárias (e o mesmo acontece nas outras expressões artísticas), até o momento em que passem a ser contestadas, dentro do campo, por alguns de seus elementos. Críticos que são reconhecidamente importantes e que passam a formular novos métodos de apreciação e valorização das obras, e começam a construir outros paradigmas (geralmente contribuindo também para a destruição dos anteriores). Essas novas manifestações, ou critérios de apreciação, inicialmente convivem, em ambiente de disputa, com as anteriormente prevalecentes. Algumas sucumbem e se transformam em meras citações efêmeras na história do campo literário. Outras se fortalecem e disputam seu lugar ao sol. E então viram movimentos ou escolas literárias (ou pictóricas, ou musicais, etc.).

Entender a dinâmica dos prêmios passa por aí. Não se trata de desonestidade, nem de conspirações maquinadas pelas grandes editoras. Mas premiações são, sim, um reflexo dessas imensas e continuadas disputas dentro do campo literário, e tendem a ganhá-las aqueles mais bem colocados, momentaneamente que seja, nesse universo.



Felipe Lindoso é jornalista, tradutor, editor e consultor de políticas públicas para o livro e leitura. Foi sócio da Editora Marco Zero, diretor da Câmara Brasileira do Livro e consultor do CERLALC – Centro Regional para o Livro na América Latina e Caribe, órgão da UNESCO. Publicou, em 2004, O Brasil pode ser um país de leitores? Política para a cultura, política para o livro, pela Summus Editorial. Mantêm o blog www.oxisdoproblema.com.br