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JuradoGPT: quem lê quando ninguém lê?

Há tempos eu não os convidava para uma reflexão. Então, fica a provocação:


O debate sobre os concursos literários tem se concentrado quase inteiramente na ilegitimidade do uso de IA na produção dos textos, enquanto a figura do leitor, do parecerista ou do jurado permanece, em grande medida, fora de questão. Discute-se quem pode escrever, mas não se problematiza quem lê. É nesse ponto que a pergunta “já temos um juradoGPT?” introduz uma inflexão relevante. Ela não descreve uma prática existente, ao menos não identificável, nem responde a uma demanda posta; ela apenas altera a perspectiva sobre o problema. No entanto, ao deslocar o foco da escrita para a recepção, a pergunta não interroga apenas a técnica de avaliação, mas lança luz sobre o regime de leitura que opera como pressuposto silencioso da ideia moderna de literatura.

O que se chama de “jurado” não é apenas um agente avaliador, mas a figura que garante a inteligibilidade do texto enquanto literatura. Ao deslocar o foco da produção para a recepção, a hipótese do jurado algorítmico tensiona a própria literatura. Escreve-se para quem? Ou, mais precisamente, sob que modos de leitura um texto se torna legível como obra literária? A inquietação não nasce da possibilidade de a máquina “compreender” um texto, mas da suspeita de que a literatura moderna se ancora numa leitura concebida como experiência intersubjetiva, como encontro entre consciências, ainda que esse encontro seja mediado por instâncias institucionais e critérios formalizados.

A leitura é pensada como encontro entre texto e horizonte de expectativas historicamente situado. Esse horizonte não é apenas cognitivo; ele é afetivo, memorial, cultural. O parecerista humano, mesmo quando opera sob critérios formais, lê a partir de um tempo vivido, de um corpo situado, de uma memória seletiva. A leitura algorítmica operaria sob outra lógica: não a da expectativa, mas a da recorrência; não a da experiência, mas a da correlação. Não se trata de ausência de memória, mas de um acúmulo quase infinito de memória, destituído de esquecimento.

Esse contraste, contudo, não autoriza uma oposição simplista. O jurado humano jamais foi um leitor neutro ou espontâneo. Ele também reconhece padrões, recompensa formas e fórmulas estabilizadas, assim como penaliza desvios excessivos. A hipótese do juradoGPT apenas torna visíveis esses mecanismos ao levá-los ao limite. Onde o humano hesita, a máquina classifica; onde o humano justifica, ela hierarquiza. A diferença essencial não reside no gesto de reconhecer, mas naquilo que se perde quando o reconhecimento deixa de ser atravessado pela emoção, pela incerteza, pelo cansaço, pela leitura como experiência.

Por outro ângulo, impõem-se outros questionamentos. O que exatamente se avalia em um concurso literário? A qualidade formal? A originalidade? O impacto sensível? Se a literatura se legitima, ao menos em parte, pela sensação que produz, como estranhamento, perturbação ou ressonância, então a recepção tende a deslocar-se do campo da interpretação para o campo do efeito. É aqui que a hipótese do jurado algorítmico se torna mais incisiva. Se o efeito é o critério decisivo, não seria possível modelá-lo? Medir densidade, surpresa, intensidade emocional? Criar um jurado imparcial, imune ao cansaço da vista ou das costas?

No entanto, a sensação pode ser detectada, modelada ou simulada; a experiência, não, pois a experiência pressupõe acontecimento. Uma leitura orientada exclusivamente pelo efeito tende a confundir impacto com sentido, resposta imediata com elaboração simbólica. O texto pode “funcionar” segundo métricas específicas, mas não necessariamente permanecer vivo, reverberando no tempo. Nesse deslocamento em direção ao efeito mensurável, a literatura corre o risco de ser reduzida a um conjunto de propriedades quantificáveis, perdendo sua capacidade de produzir silêncios, ruídos, epifanias; tudo aquilo que escapa à avaliação instantânea e mecanizada. Quando a recepção se reduz ao reconhecimento de efeitos, a obra perde espessura temporal e se esgota no instante de sua avaliação, encerrando-se no momento em que é posicionada em um gráfico, submetida a eixos de mensuração, como na célebre cena do filme Sociedade dos Poetas Mortos.

Robin Williams, no papel de Professor Keating, está diante de um quadro em que a qualidade dos poemas é medida através de um gráfico
Cena do filme Sociedade dos Poetas Mortos


Na hipótese do juradoGPT, a IA não ameaça a literatura por substituir o leitor humano, mas justamente por espelhar e potencializar uma concepção empobrecida de leitura. Ao imaginar uma recepção integralmente processada, torna-se visível o quanto certos regimes de avaliação já operam como se o texto fosse um objeto de desempenho, e não um campo de tensão simbólica. O algoritmo, nesse sentido, não inaugura a degradação; ele a torna explícita. A questão decisiva não é quem lê, mas sob quais condições a leitura ainda pode ser um acontecimento, uma experiência.

Talvez, então, a força da pergunta “já temos um juradoGPT?” resida justamente em sua condição hipotética, alimentada por discursos que já circulam no campo teórico. Imaginar o algoritmo diante de um poema, exposto a uma leitura sem encontro, a um reconhecimento sem experiência, torna possível um deslocamento nos modos de avaliação e recepção. Se a literatura ainda importa, talvez seja porque insiste em produzir zonas onde a leitura não se resolve em efeito, métrica ou desempenho, porque insiste em produzir zonas de ruído e de incômodo, onde ler continua sendo um risco. É esse risco, nascido do encontro entre leitor e literatura, mais do que qualquer técnica, que se vê ameaçado quando restam apenas algoritmos (artificiais ou humanos) a produzir e a decodificar poemas.

 

Uma androide consciente toca um rosto artifical desenvolvido para outro ser-máquina como ela
Cena do filme Ex Machina: Instinto Artificial



Rodrigo Domit

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