8 de maio de 2012

Coluna - Cristovão Tezza - Literatura Judiciária

Literatura Judiciária

Gazeta do Povo - 08/05/2012
Cristovão Tezza


Quando me perguntam o que tenho feito ultimamente, respondo que estou me dedicando à literatura judiciária. Mas fiquem tranquilos – o tema de hoje não é o Código Civil nem o sistema penal. A expressão me veio para definir um trabalho que tenho feito não tão esporadicamente nos anos recentes: integrar comissão julgadora de concurso literário. Não é uma atividade tão perigosa quanto julgar desfile de carnaval, mas também tem seu risco. A cada concurso que encerro, extenuado, juro a mim mesmo jamais aceitar outro convite; mas sou volúvel e o tempo passa, e súbito vejo minha casa assaltada de originais ou livros a julgar.

Como já perdi muito concurso literário na vida, e ganhei outros tantos, acho que hoje consigo pensar sobre a tarefa com alguma frieza e desfazer alguns equívocos comuns de quem olha de longe. Conhecer os dois lados do balcão tem suas vantagens.

A primeira coisa a lembrar é óbvia: todo concurso é falível e comete erros e omissões. Um concurso literário é apenas índice de valor de um momento, de acordo com as cabeças idiossincráticas dos jurados, e não uma decisão transcendente decretada pelas musas. Um corpo de jurados com predominância acadêmica, por exemplo, tenderá a valorizar determinada linha de produção literária; se houver predominância de jornalistas culturais, ou de escritores, os resultados serão outros. Bancas de dois ou três jurados costumam ser mais coerentes e objetivas (mas não necessariamente mais justas) do que as que contam com dez julgadores; muitas cabeças, sentenças demais. Quase sempre a premiação literária contraria o gosto popular; esta é uma das poucas áreas em que a democracia não funciona. Se o concurso é de livros publicados, o conjunto da obra do autor pode pesar no resultado. Enfim, há um emaranhado de variáveis que interferem nos prêmios que, ao fim e ao cabo, se resumem todas, simplesmente, a preferências estéticas e escolhas pessoais, o que é um duro equilíbrio. Concurso é um fenômeno errático que não deve ser supervalorizado.

Mas é bom que existam porque são uma opção importante para quem começa, desde que, como disse, o escritor não veja neles mais do que eles são. Um escritor sério não deixa de escrever porque perdeu um concurso, e nem se enche de vento porque ganhou. O que impressiona, hoje, é a quantidade e a variedade de concursos literários. Para a geração pré-internet, que foi a minha, é um paraíso – nos anos 70 e 80 não havia praticamente nada além do Jabuti, que valia apenas um jabutizinho de bronze. Hoje, há concurso literário para tudo. Descobri até um blog que parece o google dos concursos literários (confira: http://concursos-literarios.blogspot.com.br/). E os concursos deixaram de ser apenas ornamentais porque pelo menos uma grande qualidade deles está sendo cada vez mais valorizada: o valor do cheque – afinal, escritor não vive de brisa.


Fonte:
http://www.gazetadopovo.com.br/colunistas/conteudo.phtml?tl=1&id=1252263&tit=Literatura-judiciaria


Perto de completar um ano, não havia presente melhor para este blog do que esta citação por parte de um grande escritor, que já conquistou os principais prêmios literários do país!